Para a maioria dos adeptos de Santo Huberto, o defeso nunca mais acaba.
Na verdade prolonga-se por cerca de seis meses e, para muitos - a maioria - por quase oito, uma vez que só dão os primeiros tiros na abertura à caça geral.
Não é bem assim, dirão alguns e com alguma razão, porque durante o chamado defeso, as espécies de caça maior permitem, de alguma forma, fazer o chamado gosto ao dedo.
Outros ainda, mais afortunados, rumam a outras paragens e a outros continentes onde a troco de, nem sempre, muitos euros ou dólares se permitem aliviar a sua cartucheira e a carteira, em fantásticas jornadas quer de caça grossa, quer da chamada caça miúda. Os programas na América do Sul aos patos e às rolas, entre muitas outras espécies, mas também alguns programas de caça grossa em África que incluem os pequenos antílopes, são já acessíveis e só mesmo o período de maior aperto, em que vivemos, ou as boas consciências nos impedem de os desfrutar.
Há ainda excelentes oportunidades de, no stand, fazer a mão com uns tiros. No skit ou no percurso de caça, ou desafiar amigos e conterrâneos nos animados torneios de tiro aos pratos que se fazem, ou faziam, por aí a fora. Nos anos mais recentes ganharam adeptos as feiras de caça e pesca. Os caçadores portugueses, em autênticas romarias, deslocam-se quilómetros para em convívio «varrer», autenticamente, com os olhos e não só, a profusão de equipamentos, acessórios, espingardas de todas as marcas, calibres e preços. As últimas novidades, as barraquinhas de produtos regionais, as provas de cães de caça, entre muitas outras iniciativas, marcam presença anualmente. É vê-los, aos caçadores, com outro alento enquanto percorrem/correm stand após stand, pavilhão após pavilhão. Ganham alma nova para enfrentar os poucos meses que faltam para a abertura.
Mas não é nada disso que altera o que comecei por dizer.
Para a maioria, que não vai para lado nenhum e, mesmo para os poucos que o fazem uma vez, ou outra, nada substitui as jornadas de caça que por esse país fora se realizam durante a época venatória.
O saudável convívio com os amigos e companheiros de caça, o regresso ao campo numa base regular, o necessário equilíbrio com o “stress diário”, os dias de sorte e os sem grande sorte, todo o dia atrás de um bando de perdizes na companhia do nosso cão de parar, aos coelhos nos silvados, aos tordos no olival, são a verdadeira caça em Portugal.
É isso. O resto são só paliativos para manter a chama e aguentar um par de longos meses, sem caça. É como a fruta fora de época, que nos dias de hoje invade as bancas do mercado, com origem em estufas e outras paragens. É igualmente bonita, mas quanto ao essencial, é uma grande desilusão.
Pessoalmente, não fujo à regra e, no defeso, também sofro imenso. Nem as revistas da especialidade ajudam. Só abrem mais o apetite.
Acontece é que o defeso é mesmo assim. Faz parte. É necessário. É a renovação. A bicharada precisa de sossego e nós também. O defeso limpa até a alma e renova o desejo do regresso ao campo. Sem defeso não havia abertura. Sem abertura a caça tinha metade do interesse. Quantos serões, à conversa não alimenta a enorme expectativa do início da geral. Quantas mesas de café ou rodas de amigos não se entretêm a combinar a abertura. Onde ir ou não ir, sem dizer onde foram ou onde vão, não vá ficar a saber-se e haver romaria para o local. Do cachorro novo, lindíssimo e que apesar da tenra idade e de nunca ter parado uma perdiz (codornizes de aviário não é a mesma coisa) já caça como um cão velho. Do enorme pedigree que o canito apresenta. Como se tudo isso fosse suficiente para alcançar um bom cão de caça, sem treino, obediência à séria e muitas jornadas de caça para melhorar o que o treino não consolida. Ou se isso dispensasse a enorme paciência e espírito de sacrifício necessários ao dono, em especial na primeira época, para que o cachorro chegue a cão de caça. Dos cartuchos que é preciso comprar, apesar de não faltarem quantidades apreciáveis no armeiro. Da abundância de caça, ou da falta dela. Das grandes caçadas que se faziam antigamente, em especial as que nunca aconteceram. Se as perdizes criaram bem e dos perdigotos que já vimos no campo atrás da mãe muito zelosa. Se a moléstia deu nos coelhos. Se as rolas já chegaram. Dos torcazes que já criam por cá todo o ano. Das galinholas...
Do calendário venatório, que todos os anos é mais curto. Das espécies proibidas, ou das asneiras grosseiras do legislador ao sugerir caçar aos melros, (por quem nos tomam?) ou ao não introduzir maiores limitações em espécies cujos efectivos se têm reduzido a olhos vistos, ou ao não permitir a caça às espécies que mal a uva começa a pintar fazem a vindima em, menos de nada, se o dono da vinha se distrai.
Da lei das armas...
Do filho mais velho que este ano já tem licença – parabéns, António - e que deu um bigode no exame a muitos veteranos que ficaram pelo caminho mais um ano, ao pensar que tirar carta de caçador é igual a andar ao volante, ou que não têm que estudar para perceber o que, em menino, deveriam ter aprendido. No meu tempo, começávamos por andar aos ninhos, armar o tombo aos pardais e atirar à passarada com qualquer pressão de ar. Depois era acompanhar o Pai nas idas à caça. Deitar cedo, dormir mal, madrugar, apanhar frio e chuva, fazer de secretário e às vezes, muitas vezes, uma grande grande grade. São lições que os livros também ensinam mas só a quem os lê.
Da necessidade de controlar os predadores, que tanto mal fazem à caça e que as associações ambientalistas protegem aqui e ali, sem critério, aqui e acolá, cheios de razão. Da frequente falta de entendimento entre ambos, os caçadores e os ambientalistas, sem perceberem os últimos, que no seu radicalismo primário, se consideram os únicos defensores da natureza, que os caçadores são bem mais amantes da natureza e também são fundamentais para a preservação das espécies e da qualidade de vida ambiental. Para não falar das regulares jornadas de associações de caçadores que, voluntariamente, retiram toneladas de resíduos do campo, que outros, pouco zelosos do bem comum, se entretêm a despejar em qualquer lado.
(Continua...)
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