terça-feira, 5 de maio de 2015

O Defeso (Parte II)

Depois, ainda das experiências na cozinha. As perdizes de escabeche, a terrina de lebre ou a empada de caça fazem as delícias de caçadores e não caçadores - especialmente estes que só caçam no prato - e são mais uma oportunidade para convidar os amigos e acrescentar um ponto ao lance ou aos resultados desta ou daquela jornada, onde, como convém, muitos dos presentes estiveram ausentes.
- Bom, mas então não há defeso. Vocês não fazem outra coisa dizem elas lá em casa.

Bem. Na verdade, haver há, mas são meia dúzia de meses de conversas e não só...que nos entretêm e ajudam a passar o tempo já a pensar na abertura.

Mas nem tudo são rosas…

Situações há, em que o defeso não é saudável. A preguiça e o nosso egoísmo revelam-se no seu melhor. É verdade. Pagam as espingardas e os nossos cães. «Arrumam-se» ambos durante uns meses. Às espingardas, ainda que o facto cause verdadeira mossa, quer à vista quer não (os mecanismos também pagam a factura da falta de limpeza, óleo e das consequências de umas tantas chuvadas durante a época), a coisa não será grave. Espingarda bem tratada nunca acaba e estará sempre de boa saúde. Limpezas regulares durante a época e uma ida ao armeiro, no início do defeso, para limpar o mecanismo, evitam maiores despesas e algumas chatices na caça. As mais frequentes - a que estou farto de assistir - são os encravanços que os impedem, aos donos, de fazer tiro e em muitas circunstâncias emendar o primeiro errado e claro está, pendurar mais uma, ou por vezes, livrar a grade. Como muitos há que não as limpam nunca - nem durante nem no fim - o resultado paga-se ao armeiro - que também precisa de dinamizar o negócio - em reparações ou arma nova. Eu ganhei o bom hábito de limpar as espingardas, quando o meu pai já não tinha tanta paciência para o fazer, mas não deixava de recordar disciplina aos seus cinco filhos rapazes. Pena é que, no meu caso, não tenha agora a quem passar a tarefa.

Quanto aos cães é grave e não é justo nem revelador de grande inteligência do dono. O cão é o nosso maior amigo. Não pode ser deixado ali, ao abandono, tantos meses. Quer dizer sem festas, sem passeios ao campo, sem a companhia do próprio do dono. O cão não é máquina, e precisa não de óleo, mas de afecto (contenta-se com uma festa), limpeza e cuidados de saúde onde se incluem visitas ao veterinário, vacinas em dia, desparasitantes e coleiras preventivas contra os habituais parasitas externos e mosquitos por forma a evitar doenças graves e altamente incapacitantes (lechmaniose). Finalmente o exercício para, quando chegar a época, poder estar em forma.

Comprar um cachorro das melhores linhas, entregá-lo a terceiros para alcançar o seu ensino e, no dia de abertura, exigir obediência através de uma coleira de treino, não só não é humano, como não resulta. Ou por outra, resulta num inferno de caçada para o dono, que roga pragas ao cão e ao treinador pelo facto de o cachorro não lhe obedecer, e, num desassossego, especialmente para os colegas de caçada incomodados com a gritaria, com a perturbação que o facto está a causar, nomeadamente ao pôr tudo quanto voa...no ar, a uma distância impossível de atirar. Só com carabina para uma chumbada no dono.

Mas não se pense que a coisa fica por aqui. - Não senhor! Situações em que o único que não está incomodado é o próprio dono. Como se a questão fosse normal. É assim, faz parte da aprendizagem, desculpa-se este. Há que ter paciência já que ele - o dono - não a teve para o ensino e socialização da “fera”. Curiosamente já não acha graça é quando a brincadeira o prejudica a ele. Isso é que não. Pois claro! Em alguns casos ainda têm a lata de compor o ramalhete, elogiando imenso os dotes do cachorro. Sim, sim, muito dotado, dirão as águias, as raposinhas e os saca-rabos na perspectiva de grandes almoços, tantas as perdizes que o dito nos retirou da mira da espingarda e dos magros cintos que nos apertam a cintura.

O resultado, na maioria das vezes, é que se perde um grande cão, tanta a coisa mal feita - ou não feita - durante a fase de ensino. O que é pena.

Na verdade o defeso também é para cuidar do nosso cão. Se o fizermos, não só prolongamos o gozo das jornadas pelo defeso fora, como poderemos tirar mais partido em prol do cinto e do prato, em verdadeira e única dupla, ao longo da época que se avizinha.

Finalmente uma nota adicional para a ocupação no defeso. A leitura, a escrita e a fotografia.
Ler um bom livro de caça - e há felizmente alguns - ou investir algum tempo em passar ao papel as nossas histórias, as jornadas de caça, as galgas dos amigos, arrumar a preceito o álbum das fotografias tiradas durante a época anterior, são iniciativas de enorme prazer individual e em família. Pessoalmente tenho «vivido» fantásticas jornadas de caça em África onde nunca estive, ou simplesmente revivido com igual prazer, as caçadas de salto às perdizes ou os lances às galinholas onde participei.

Tal qual um banho frio após uma hora de corrida, o defeso, pode ser, afinal, altamente revigorante.
Depois … “em Agosto espingarda ao rosto”.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

O Defeso (Parte I)



Para a maioria dos adeptos de Santo Huberto, o defeso nunca mais acaba.

Na verdade prolonga-se por cerca de seis meses e, para muitos - a maioria - por quase oito, uma vez que só dão os primeiros tiros na abertura à caça geral.

Não é bem assim, dirão alguns e com alguma razão, porque durante o chamado defeso, as espécies de caça maior permitem, de alguma forma, fazer o chamado gosto ao dedo.

Outros ainda, mais afortunados, rumam a outras paragens e a outros continentes onde a troco de, nem sempre, muitos euros ou dólares se permitem aliviar a sua cartucheira e a carteira, em fantásticas jornadas quer de caça grossa, quer da chamada caça miúda. Os programas na América do Sul aos patos e às rolas, entre muitas outras espécies, mas também alguns programas de caça grossa em África que incluem os pequenos antílopes, são já acessíveis e só mesmo o período de maior aperto, em que vivemos, ou as boas consciências nos impedem de os desfrutar.

Há ainda excelentes oportunidades de, no stand, fazer a mão com uns tiros. No skit ou no percurso de caça, ou desafiar amigos e conterrâneos nos animados torneios de tiro aos pratos que se fazem, ou faziam, por aí a fora. Nos anos mais recentes ganharam adeptos as feiras de caça e pesca. Os caçadores portugueses, em autênticas romarias, deslocam-se quilómetros para em convívio «varrer», autenticamente, com os olhos e não só, a profusão de equipamentos, acessórios, espingardas de todas as marcas, calibres e preços. As últimas novidades, as barraquinhas de produtos regionais, as provas de cães de caça, entre muitas outras iniciativas, marcam presença anualmente. É vê-los, aos caçadores, com outro alento enquanto percorrem/correm stand após stand, pavilhão após pavilhão. Ganham alma nova para enfrentar os poucos meses que faltam para a abertura.

Mas não é nada disso que altera o que comecei por dizer.

Para a maioria, que não vai para lado nenhum e, mesmo para os poucos que o fazem uma vez, ou outra, nada substitui as jornadas de caça que por esse país fora se realizam durante a época venatória.

O saudável convívio com os amigos e companheiros de caça, o regresso ao campo numa base regular, o necessário equilíbrio com o “stress diário”, os dias de sorte e os sem grande sorte, todo o dia atrás de um bando de perdizes na companhia do nosso cão de parar, aos coelhos nos silvados, aos tordos no olival, são a verdadeira caça em Portugal.

É isso. O resto são só paliativos para manter a chama e aguentar um par de longos meses, sem caça. É como a fruta fora de época, que nos dias de hoje invade as bancas do mercado, com origem em estufas e outras paragens. É igualmente bonita, mas quanto ao essencial, é uma grande desilusão.
Pessoalmente, não fujo à regra e, no defeso, também sofro imenso. Nem as revistas da especialidade ajudam. Só abrem mais o apetite.

Acontece é que o defeso é mesmo assim. Faz parte. É necessário. É a renovação. A bicharada precisa de sossego e nós também. O defeso limpa até a alma e renova o desejo do regresso ao campo. Sem defeso não havia abertura. Sem abertura a caça tinha metade do interesse. Quantos serões, à conversa não alimenta a enorme expectativa do início da geral. Quantas mesas de café ou rodas de amigos não se entretêm a combinar a abertura. Onde ir ou não ir, sem dizer onde foram ou onde vão, não vá ficar a saber-se e haver romaria para o local. Do cachorro novo, lindíssimo e que apesar da tenra idade e de nunca ter parado uma perdiz (codornizes de aviário não é a mesma coisa) já caça como um cão velho. Do enorme pedigree que o canito apresenta. Como se tudo isso fosse suficiente para alcançar um bom cão de caça, sem treino, obediência à séria e muitas jornadas de caça para melhorar o que o treino não consolida. Ou se isso dispensasse a enorme paciência e espírito de sacrifício necessários ao dono, em especial na primeira época, para que o cachorro chegue a cão de caça. Dos cartuchos que é preciso comprar, apesar de não faltarem quantidades apreciáveis no armeiro. Da abundância de caça, ou da falta dela. Das grandes caçadas que se faziam antigamente, em especial as que nunca aconteceram. Se as perdizes criaram bem e dos perdigotos que já vimos no campo atrás da mãe muito zelosa. Se a moléstia deu nos coelhos. Se as rolas já chegaram. Dos torcazes que já criam por cá todo o ano. Das galinholas...

Do calendário venatório, que todos os anos é mais curto. Das espécies proibidas, ou das asneiras grosseiras do legislador ao sugerir caçar aos melros, (por quem nos tomam?) ou ao não introduzir maiores limitações em espécies cujos efectivos se têm reduzido a olhos vistos, ou ao não permitir a caça às espécies que mal a uva começa a pintar fazem a vindima em, menos de nada, se o dono da vinha se distrai.

Da lei das armas...

Do filho mais velho que este ano já tem licença – parabéns, António - e que deu um bigode no exame a muitos veteranos que ficaram pelo caminho mais um ano, ao pensar que tirar carta de caçador é igual a andar ao volante, ou que não têm que estudar para perceber o que, em menino, deveriam ter aprendido. No meu tempo, começávamos por andar aos ninhos, armar o tombo aos pardais e atirar à passarada com qualquer pressão de ar. Depois era acompanhar o Pai nas idas à caça. Deitar cedo, dormir mal, madrugar, apanhar frio e chuva, fazer de secretário e às vezes, muitas vezes, uma grande grande grade. São lições que os livros também ensinam mas só a quem os lê.

Da necessidade de controlar os predadores, que tanto mal fazem à caça e que as associações ambientalistas protegem aqui e ali, sem critério, aqui e acolá, cheios de razão. Da frequente falta de entendimento entre ambos, os caçadores e os ambientalistas, sem perceberem os últimos, que no seu radicalismo primário, se consideram os únicos defensores da natureza, que os caçadores são bem mais amantes da natureza e também são fundamentais para a preservação das espécies e da qualidade de vida ambiental. Para não falar das regulares jornadas de associações de caçadores que, voluntariamente, retiram toneladas de resíduos do campo, que outros, pouco zelosos do bem comum, se entretêm a despejar em qualquer lado.

(Continua...)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

A Paixão pelo Campo e pela Caça



Tenho por hábito dizer que sou do campo. Verdadeiramente o sinto e o campo faz parte de mim.

Nasci no campo, tal qual a maioria dos meus oito irmãos, na Várzea, nos Riachos. E foi por lá, até a questão de outros estudos se colocar, que ganhei amor ao campo e o gosto pelas coisas mais simples da vida.

Hoje, passados 40 anos e mais, é isto que levo dentro de mim quando regresso ao campo pela caça. É por isto que tanto gozo me dá ver, na primavera, uma perdiz com uma mão cheia de pintos atrás, como à caça, aquando do levante, a mesma prole, agora bando. Por incrível que vos pareça é igualmente maravilhosa a sensação.

A segurança no manuseamento das armas, o gosto e o respeito pela caça e pelo campo, pelas searas não colhidas, o amor aos cães, a camaradagem e o fairplay na linha e nos lances - nunca ouvi o meu Pai a gritar: é minha! As horas em que lhe fiz companhia e a satisfação que me davam as caçadas, mesmo sem dar um tiro, sempre na expectativa que haveria de chegar a minha vez. A alegria com que corria a apanhar a peça de caça abatida é igual à satisfação de hoje. A cumplicidade que se estabelece entre ambos é do domínio do insubstituível. Não se aprende nos manuais.

Mas eu não vivi só no campo; eu vivi o campo. De tal modo se entranhou, que o facto influencia o que faço e a maneira como o faço. O que gosto e o que considero não valer nem a pena. O que respeito incondicionalmente e o que continuo com cada vez maior dificuldade em entender.

As coisas são o que são. Eu sou do campo desde sempre. Não posso fazer de conta nem quero mudar isso. É mais simples.

Para que se saiba andei aos ninhos anos a fio. Com fisga feita à mão, à navalha - ganha na taberna a troco de tostão e de furos no cartão - ou pressão de ar matei toda a espécie de passarada miúda. 

Apanhei, à mão, enguias no rio, ou bogas a saltar o açude. Armei ratoeiras com agúdias aos tordos. Fumei barbas de milho em cachimbo de cana verde acabado à navalha e no momento. Nem experimentem. Fiz cabanas de caruma e brinquei aos índios e aos cowboys vezes sem fim e joguei à bola, mesmo sem ela, até os bofes e as solas das botas não aguentarem mais. 

Assisti, vezes sem conta, à matança do porco e já mais velho, era eu que lhe segurava uma das mãos, no meio de indiscritível gritaria, do dito grunhindo até mais não poder, já antevendo o seu destino. Habituei-me a ver e a ajudar a crescer na capoeira, pintos, frangos, patos e todo o tipo de criação, mas também a vê-los, algum tempo mais tarde, na banca de pedra da cozinha. Perdi horas à erva para os coelhos, que ração não era comida. Semeei favas no inverno e batatas na primavera, deitei canas ao feijão que, a subir, se faz verde e, de verão, à hora do calor, passei tardes a regar de pé, tudo o que na horta havia para cuidar. Tomei banhos no tanque onde por sorte não me fiquei, que um dos manos me puxou pelos cabelos.

Mas a paixão pela caça devo-a ao meu Pai. Foi a acompanhá-lo que aprendi o que sei e lhe fui ganhando o gosto. Entre todos os meus irmãos - somos cinco rapazes - só a mim o bichinho da caça mordeu. Vá lá saber-se porquê. Ao Domingo, aos tordos no pinhal do Casal das Flores. À dormida, e bem mais tarde do que hoje é permitido, para além da companhia, éramos um excelente auxiliar, ora a apontar algum a entrar, ora a procurar os que caiam no meio do laranjal. 

Desde sempre às narcejas, nos terrenos encharcados junto à fábrica de tomate e por todos os terrenos alagados, na Golegã. À época e talvez ainda hoje, eram poucos os adeptos. Quer pela dificuldade do tiro – muito rápido – quer pelo desconforto do terreno irregular e encharcado. Os dias de inverno e com vento exigem sacrifício e muito vício, embora proporcionem as melhores jornadas de caça a esta espécie e, naturalmente, bons cintos. O Pai tinha fama de atirar bem às narcejas. Era um apaixonado. 

Acompanhei-o ainda muitas vezes nas idas ao Alentejo, num couto arrendado ao Marquês de Fronteira. O Sr. D. Fernando de Mascarenhas fazia sempre questão de acompanhar o grupo, mas apesar de dormir no monte, era sempre o último a chegar. Atenção que nós partíamos dos Riachos. No seu capote alentejano lá aparecia finalmente.

O Pai sempre caçou com a sua Francotte, câmara 65, comprada nos leilões da polícia, em Novembro de 1951 por 600$00. Os cartuchos eram carregados lá em casa. Substituída a espoleta, passava ao recalibrador, pólvora bem pesada na balança – que ainda tenho - buchas de cartão e feltro, tudo bem compactado. A carga de chumbo ia a seguir. Uma bucha de cartão numerada e o rebordador para finalizar. Se não me engano, era assim. À falta de meios - nesses tempos não havia mesadas - carregava eu todos os meus cartuchos.

O que pude e soube aprender com o meu Pai foi muito útil durante os meus primeiros anos de caça. Quem passou por isso sabe bem do que falo.

Nos últimos anos acabou por se render e comprar uma “automática” FN Browning, calibre 20. Sempre pesava menos e permitia a utilização de mais um cartucho, o que não sendo na prática uma grande vantagem, especialmente a caçar de salto, era moda. 

Quando comecei a caçar, sempre que caçávamos juntos, como não tinha espingarda, pedia emprestada ao meu Tio Fernando a sua FN, uma calibre 12 de canos justapostos e dois gatilhos. Dava imenso jeito. Mas foi com o Pai, que comprei a minha primeira espingarda. Uma Japonesa Nikko. Comprada nova num armeiro em Abrantes, custou 19.200$00 (200$00 acima da FN igualmente fabricada no Japão). Calibre 70 e canos sobrepostos. Minha!

Acabo a crónica com um episódio delicioso.

Vim a Lisboa tratar da carta de caçador e da licença de caça. Já nessa altura era na Direcção Geral Florestas, ali às avenidas novas (João Crisóstomo). Como vinha sozinho estudei bem a lição: toda a documentação necessária e o trajecto a partir de Santa Apolónia. Afinal de contas vir dos Riachos a Lisboa era uma aventura. E foi. Já no guichet fui surpreendido com a falta de um selo fiscal. Éh lá, esta não estava prevista.

- E agora onde é que eu vou comprar um selo fiscal? 

A mesma funcionária explicou-me que o podia fazer na Avenida 5 de Outubro. Chegado cá abaixo, pensei que a melhor solução era o táxi, uma vez que não fazia ideia onde era. Assim pensei e melhor o fiz. 

Chamei um táxi e ao entrar pedi para me levar à Avenida 5 de Outubro. Não são mais que 50 metros pelo que nem vale a pena descrever a cara com que ficou o taxista. Fui a pé.

Como é bom de ver uma coisa destas só pode acontecer a alguém do campo.