- Bom, mas então não há defeso. Vocês não fazem outra coisa dizem elas lá em casa.
Bem. Na verdade, haver há, mas são meia dúzia de meses de conversas e não só...que nos entretêm e ajudam a passar o tempo já a pensar na abertura.
Mas nem tudo são rosas…
Situações há, em que o defeso não é saudável. A preguiça e o nosso egoísmo revelam-se no seu melhor. É verdade. Pagam as espingardas e os nossos cães. «Arrumam-se» ambos durante uns meses. Às espingardas, ainda que o facto cause verdadeira mossa, quer à vista quer não (os mecanismos também pagam a factura da falta de limpeza, óleo e das consequências de umas tantas chuvadas durante a época), a coisa não será grave. Espingarda bem tratada nunca acaba e estará sempre de boa saúde. Limpezas regulares durante a época e uma ida ao armeiro, no início do defeso, para limpar o mecanismo, evitam maiores despesas e algumas chatices na caça. As mais frequentes - a que estou farto de assistir - são os encravanços que os impedem, aos donos, de fazer tiro e em muitas circunstâncias emendar o primeiro errado e claro está, pendurar mais uma, ou por vezes, livrar a grade. Como muitos há que não as limpam nunca - nem durante nem no fim - o resultado paga-se ao armeiro - que também precisa de dinamizar o negócio - em reparações ou arma nova. Eu ganhei o bom hábito de limpar as espingardas, quando o meu pai já não tinha tanta paciência para o fazer, mas não deixava de recordar disciplina aos seus cinco filhos rapazes. Pena é que, no meu caso, não tenha agora a quem passar a tarefa.
Quanto aos cães é grave e não é justo nem revelador de grande inteligência do dono. O cão é o nosso maior amigo. Não pode ser deixado ali, ao abandono, tantos meses. Quer dizer sem festas, sem passeios ao campo, sem a companhia do próprio do dono. O cão não é máquina, e precisa não de óleo, mas de afecto (contenta-se com uma festa), limpeza e cuidados de saúde onde se incluem visitas ao veterinário, vacinas em dia, desparasitantes e coleiras preventivas contra os habituais parasitas externos e mosquitos por forma a evitar doenças graves e altamente incapacitantes (lechmaniose). Finalmente o exercício para, quando chegar a época, poder estar em forma.
Comprar um cachorro das melhores linhas, entregá-lo a terceiros para alcançar o seu ensino e, no dia de abertura, exigir obediência através de uma coleira de treino, não só não é humano, como não resulta. Ou por outra, resulta num inferno de caçada para o dono, que roga pragas ao cão e ao treinador pelo facto de o cachorro não lhe obedecer, e, num desassossego, especialmente para os colegas de caçada incomodados com a gritaria, com a perturbação que o facto está a causar, nomeadamente ao pôr tudo quanto voa...no ar, a uma distância impossível de atirar. Só com carabina para uma chumbada no dono.
Mas não se pense que a coisa fica por aqui. - Não senhor! Situações em que o único que não está incomodado é o próprio dono. Como se a questão fosse normal. É assim, faz parte da aprendizagem, desculpa-se este. Há que ter paciência já que ele - o dono - não a teve para o ensino e socialização da “fera”. Curiosamente já não acha graça é quando a brincadeira o prejudica a ele. Isso é que não. Pois claro! Em alguns casos ainda têm a lata de compor o ramalhete, elogiando imenso os dotes do cachorro. Sim, sim, muito dotado, dirão as águias, as raposinhas e os saca-rabos na perspectiva de grandes almoços, tantas as perdizes que o dito nos retirou da mira da espingarda e dos magros cintos que nos apertam a cintura.
O resultado, na maioria das vezes, é que se perde um grande cão, tanta a coisa mal feita - ou não feita - durante a fase de ensino. O que é pena.
Na verdade o defeso também é para cuidar do nosso cão. Se o fizermos, não só prolongamos o gozo das jornadas pelo defeso fora, como poderemos tirar mais partido em prol do cinto e do prato, em verdadeira e única dupla, ao longo da época que se avizinha.
Finalmente uma nota adicional para a ocupação no defeso. A leitura, a escrita e a fotografia.
Ler um bom livro de caça - e há felizmente alguns - ou investir algum tempo em passar ao papel as nossas histórias, as jornadas de caça, as galgas dos amigos, arrumar a preceito o álbum das fotografias tiradas durante a época anterior, são iniciativas de enorme prazer individual e em família. Pessoalmente tenho «vivido» fantásticas jornadas de caça em África onde nunca estive, ou simplesmente revivido com igual prazer, as caçadas de salto às perdizes ou os lances às galinholas onde participei.
Tal qual um banho frio após uma hora de corrida, o defeso, pode ser, afinal, altamente revigorante.
Depois … “em Agosto espingarda ao rosto”.

