Tenho por hábito dizer que sou do campo. Verdadeiramente o sinto e o campo faz parte de mim.
Nasci no campo, tal qual a maioria dos meus oito irmãos, na Várzea, nos Riachos. E foi por lá, até a questão de outros estudos se colocar, que ganhei amor ao campo e o gosto pelas coisas mais simples da vida.
Hoje, passados 40 anos e mais, é isto que levo dentro de mim quando regresso ao campo pela caça. É por isto que tanto gozo me dá ver, na primavera, uma perdiz com uma mão cheia de pintos atrás, como à caça, aquando do levante, a mesma prole, agora bando. Por incrível que vos pareça é igualmente maravilhosa a sensação.
A segurança no manuseamento das armas, o gosto e o respeito pela caça e pelo campo, pelas searas não colhidas, o amor aos cães, a camaradagem e o fairplay na linha e nos lances - nunca ouvi o meu Pai a gritar: é minha! As horas em que lhe fiz companhia e a satisfação que me davam as caçadas, mesmo sem dar um tiro, sempre na expectativa que haveria de chegar a minha vez. A alegria com que corria a apanhar a peça de caça abatida é igual à satisfação de hoje. A cumplicidade que se estabelece entre ambos é do domínio do insubstituível. Não se aprende nos manuais.
Mas eu não vivi só no campo; eu vivi o campo. De tal modo se entranhou, que o facto influencia o que faço e a maneira como o faço. O que gosto e o que considero não valer nem a pena. O que respeito incondicionalmente e o que continuo com cada vez maior dificuldade em entender.
As coisas são o que são. Eu sou do campo desde sempre. Não posso fazer de conta nem quero mudar isso. É mais simples.
Para que se saiba andei aos ninhos anos a fio. Com fisga feita à mão, à navalha - ganha na taberna a troco de tostão e de furos no cartão - ou pressão de ar matei toda a espécie de passarada miúda.
Apanhei, à mão, enguias no rio, ou bogas a saltar o açude. Armei ratoeiras com agúdias aos tordos. Fumei barbas de milho em cachimbo de cana verde acabado à navalha e no momento. Nem experimentem. Fiz cabanas de caruma e brinquei aos índios e aos cowboys vezes sem fim e joguei à bola, mesmo sem ela, até os bofes e as solas das botas não aguentarem mais.
Assisti, vezes sem conta, à matança do porco e já mais velho, era eu que lhe segurava uma das mãos, no meio de indiscritível gritaria, do dito grunhindo até mais não poder, já antevendo o seu destino. Habituei-me a ver e a ajudar a crescer na capoeira, pintos, frangos, patos e todo o tipo de criação, mas também a vê-los, algum tempo mais tarde, na banca de pedra da cozinha. Perdi horas à erva para os coelhos, que ração não era comida. Semeei favas no inverno e batatas na primavera, deitei canas ao feijão que, a subir, se faz verde e, de verão, à hora do calor, passei tardes a regar de pé, tudo o que na horta havia para cuidar. Tomei banhos no tanque onde por sorte não me fiquei, que um dos manos me puxou pelos cabelos.
Mas a paixão pela caça devo-a ao meu Pai. Foi a acompanhá-lo que aprendi o que sei e lhe fui ganhando o gosto. Entre todos os meus irmãos - somos cinco rapazes - só a mim o bichinho da caça mordeu. Vá lá saber-se porquê. Ao Domingo, aos tordos no pinhal do Casal das Flores. À dormida, e bem mais tarde do que hoje é permitido, para além da companhia, éramos um excelente auxiliar, ora a apontar algum a entrar, ora a procurar os que caiam no meio do laranjal.
Desde sempre às narcejas, nos terrenos encharcados junto à fábrica de tomate e por todos os terrenos alagados, na Golegã. À época e talvez ainda hoje, eram poucos os adeptos. Quer pela dificuldade do tiro – muito rápido – quer pelo desconforto do terreno irregular e encharcado. Os dias de inverno e com vento exigem sacrifício e muito vício, embora proporcionem as melhores jornadas de caça a esta espécie e, naturalmente, bons cintos. O Pai tinha fama de atirar bem às narcejas. Era um apaixonado.
Acompanhei-o ainda muitas vezes nas idas ao Alentejo, num couto arrendado ao Marquês de Fronteira. O Sr. D. Fernando de Mascarenhas fazia sempre questão de acompanhar o grupo, mas apesar de dormir no monte, era sempre o último a chegar. Atenção que nós partíamos dos Riachos. No seu capote alentejano lá aparecia finalmente.
O Pai sempre caçou com a sua Francotte, câmara 65, comprada nos leilões da polícia, em Novembro de 1951 por 600$00. Os cartuchos eram carregados lá em casa. Substituída a espoleta, passava ao recalibrador, pólvora bem pesada na balança – que ainda tenho - buchas de cartão e feltro, tudo bem compactado. A carga de chumbo ia a seguir. Uma bucha de cartão numerada e o rebordador para finalizar. Se não me engano, era assim. À falta de meios - nesses tempos não havia mesadas - carregava eu todos os meus cartuchos.
O que pude e soube aprender com o meu Pai foi muito útil durante os meus primeiros anos de caça. Quem passou por isso sabe bem do que falo.
Nos últimos anos acabou por se render e comprar uma “automática” FN Browning, calibre 20. Sempre pesava menos e permitia a utilização de mais um cartucho, o que não sendo na prática uma grande vantagem, especialmente a caçar de salto, era moda.
Quando comecei a caçar, sempre que caçávamos juntos, como não tinha espingarda, pedia emprestada ao meu Tio Fernando a sua FN, uma calibre 12 de canos justapostos e dois gatilhos. Dava imenso jeito. Mas foi com o Pai, que comprei a minha primeira espingarda. Uma Japonesa Nikko. Comprada nova num armeiro em Abrantes, custou 19.200$00 (200$00 acima da FN igualmente fabricada no Japão). Calibre 70 e canos sobrepostos. Minha!
Acabo a crónica com um episódio delicioso.
Vim a Lisboa tratar da carta de caçador e da licença de caça. Já nessa altura era na Direcção Geral Florestas, ali às avenidas novas (João Crisóstomo). Como vinha sozinho estudei bem a lição: toda a documentação necessária e o trajecto a partir de Santa Apolónia. Afinal de contas vir dos Riachos a Lisboa era uma aventura. E foi. Já no guichet fui surpreendido com a falta de um selo fiscal. Éh lá, esta não estava prevista.
- E agora onde é que eu vou comprar um selo fiscal?
A mesma funcionária explicou-me que o podia fazer na Avenida 5 de Outubro. Chegado cá abaixo, pensei que a melhor solução era o táxi, uma vez que não fazia ideia onde era. Assim pensei e melhor o fiz.
Chamei um táxi e ao entrar pedi para me levar à Avenida 5 de Outubro. Não são mais que 50 metros pelo que nem vale a pena descrever a cara com que ficou o taxista. Fui a pé.
Como é bom de ver uma coisa destas só pode acontecer a alguém do campo.

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